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Quando a maquiagem virou autocuidado

Do batom como dever patriótico ao skincare vendido como ritual de bem-estar: a virada que explica por que hoje "se cuidar" vale mais do que "se maquiar"

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Mulher com toalha na cabeça aplicando creme no rosto em frente a um espelho

Foto: Pexels

Quando uma marca de skincare vende hoje um sérum como "seu momento de autocuidado", ela está se apoiando numa ideia relativamente nova. Durante boa parte do século 20, maquiagem não era autocuidado: era obrigação social, e por um bom tempo, obrigação patriótica. Entender essa virada explica por que o discurso da beleza mudou tanto nos últimos dez anos, e por que hoje uma rotina de skincare vende mais como ritual de bem-estar do que como produto de vaidade.

Beleza como dever, não como escolha

A partir dos anos 1920, com a produção industrial em massa de cosméticos, usar maquiagem deixou de ser exclusividade de atrizes e cortesãs e virou expectativa social para a mulher comum. Aparecer "bem cuidada" era medida de disciplina pessoal, não de prazer. Esse padrão se intensificou na década seguinte com o cinema: em 1933, a revista Vogue chegou a declarar o batom o item mais importante que uma mulher poderia ter na bolsa.

Quando o batom virou dever patriótico

A Segunda Guerra Mundial radicalizou essa lógica. Nos Estados Unidos, autoridades chegaram a cogitar suspender a produção de cosméticos para direcionar recursos ao esforço de guerra, mas voltaram atrás ao considerar que manter a aparência das mulheres era "vital" para o moral da população. A maquiadora Elizabeth Arden foi contratada para criar batons específicos para as fardas femininas: o "Montezuma Red", casado com o vermelho dos uniformes militares, e depois o "Victory Red", vendido ao público civil. Passar batom vermelho virou, na prática, um gesto de patriotismo, e em territórios ocupados pelos nazistas, também um pequeno ato de resistência, já que o regime associava cosméticos à decadência ocidental. Beleza, nessa época, não tinha nada de intimista: era performance pública de força e otimismo.

A virada para "a pele em primeiro lugar"

Essa lógica de maquiagem como obrigação começou a perder força de forma mais visível a partir de meados dos anos 2010, com a ascensão global do K-beauty. A cultura de beleza coreana, historicamente organizada em torno do princípio de cuidar da pele antes de cobri-la, ganhou o mundo através de rotinas de múltiplas etapas e de produtos como máscaras de tecido e essências. Entre 2016 e 2018, o mercado de K-beauty cresceu de forma acelerada nos Estados Unidos, empurrando um movimento que a indústria batizou de "skinification": cada vez mais categorias de maquiagem passaram a ser formuladas e vendidas como tratamento de pele, não como disfarce dela. Por volta de 2018, boa parte do mercado de beleza já mostrava sinais claros de migração de orçamento de maquiagem para skincare.

De onde vem a palavra "autocuidado"

O termo "self-care" que hoje estampa embalagem de creme tem uma origem bem mais séria do que sugere o marketing. Ele ganhou força política nos anos 1980 através da escritora e ativista negra Audre Lorde, que escreveu em "A Burst of Light" (1988): "cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política". Pra Lorde, cuidar do próprio corpo era resistência num mundo que historicamente negava isso a mulheres negras. Décadas depois, o conceito foi absorvido pela cultura wellness e, de lá, pelo mercado de beleza, perdendo boa parte da carga política original no caminho até virar sinônimo de máscara facial e banho de espuma.

Por que essa história importa agora

A pandemia acelerou essa transição de vez: com o rosto coberto por máscaras e menos motivo pra usar batom, mas mais tempo em casa e mais ansiedade pra administrar, skincare virou o ponto de contato emocional que a maquiagem costumava ocupar. O resultado é o cenário de hoje, em que marcas praticamente abandonaram a linguagem de "cobrir imperfeição" em favor de "ritual" e "rotina de bem-estar", mesmo vendendo, na prática, os mesmos potes de creme de sempre. Saber que esse vocabulário nasceu como ferramenta de sobrevivência política, e não como estratégia de prateleira, muda a forma de olhar pra ele: parte do apelo do "self-care" de hoje é genuíno, mas outra parte é reaproveitamento de linguagem que, na origem, tinha peso bem maior do que um sérum de vitamina C.

Produzido com ajuda de Inteligência Artificial.

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