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A história da Hermès

De uma selaria parisiense fundada em 1837 à casa de luxo mais cobiçada do mundo, sem nunca sair das mãos da família fundadora

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Fachada de uma boutique da Hermès em Paris, com a marca gravada na madeira entalhada

Foto: Moonik (CC BY-SA 3.0)

A Hermès é uma das poucas grifes de luxo do tamanho dela que nunca precisou trocar de dono pra crescer. Enquanto rivais foram sendo absorvidas por conglomerados como LVMH e Kering ao longo das últimas décadas, a maison francesa segue nas mãos da mesma família desde a fundação, em 1837, hoje já na sexta geração. Entender como ela chegou até aqui explica boa parte do porquê uma bolsa Hermès continua sendo, décadas depois, sinônimo de espera, escassez e status.

Uma oficina de arreios, não uma grife

A história começa longe da moda. Thierry Hermès, nascido na Alemanha em 1801 e radicado em Paris a partir de 1821, abriu em 1837 uma oficina de arreios e selaria na Rue Basse-du-Rempart, perto dos bulevares parisienses. O negócio vendia acessórios de couro para cavalos e carruagens da nobreza europeia: selas, rédeas, estribos, malas de viagem. A qualidade do trabalho rendeu à casa sua primeira medalha em uma Exposição Universal de Paris em 1867, ainda no século 19.

A virada para o que a Hermès é hoje só começou com a segunda geração. Charles-Émile Hermès, filho do fundador, assumiu o negócio em 1880 e, a partir de 1900, ampliou o catálogo para produtos de couro além do universo equestre, especialmente malas e bagagens de alta qualidade, prevendo que o automóvel fosse eventualmente substituir o cavalo como meio de transporte da elite.

Kelly e Birkin: duas bolsas, duas histórias

As duas bolsas mais famosas da marca nasceram de formas bem diferentes. A que hoje é chamada de Kelly foi criada nos anos 1930 por Robert Dumas, genro de Émile Hermès, como uma versão atualizada de uma bolsa que a casa já fazia. Só ganhou esse nome décadas depois: em 1956, a princesa Grace Kelly de Mônaco foi fotografada usando o modelo pra esconder a barriga de gravidez dos paparazzi, numa imagem publicada pela revista Life. A repercussão foi tanta que a Hermès rebatizou o produto em sua homenagem.

A Birkin surgiu de um encontro ao acaso quase 30 anos depois. Em 1984, a atriz e cantora Jane Birkin dividiu um voo entre Paris e Londres com Jean-Louis Dumas, então à frente da casa. Depois que o conteúdo de sua bolsa de palha se espalhou pelo chão do avião, Birkin reclamou não achar uma bolsa de couro funcional à altura de suas necessidades. Dumas desenhou o modelo com ela ali mesmo, num guardanapo, dando origem à bolsa que se tornaria um dos itens de revenda mais valorizados do mercado de luxo.

O laranja que virou assinatura

A cor mais reconhecível da Hermès nem sempre foi laranja. Nos anos 1920, as caixas da marca eram num tom creme, imitando pele de porco; na década seguinte, passaram a um amarelo mostarda. A mudança definitiva aconteceu por acidente: durante a Segunda Guerra Mundial, com a França ocupada, faltou o papelão nos tons habituais, e o fornecedor da época só tinha disponível um papelão laranja, cor pouco popular na ocasião. A Hermès adotou a solução por necessidade em 1942 e nunca mais voltou atrás — o laranja segue até hoje como a cor mais associada à marca no mercado de luxo.

Em 1937, ano em que a casa completou um século, veio outro símbolo que perdura: o carré, o lenço de seda quadrado criado por Robert Dumas e pelo ilustrador Hugo Grygkar. O primeiro modelo, batizado de "Jeu des Omnibus et Dames Blanches", era inspirado em um jogo de tabuleiro do século 19 que fazia parte da coleção de antiguidades de Émile Hermès. De lá pra cá, a maison já lançou mais de duas mil estampas diferentes de carré.

Por que a independência da marca importa hoje

Em 2010, o bilionário Bernard Arnault revelou que a LVMH, dona de rivais diretas como Louis Vuitton e Dior, havia acumulado silenciosamente uma fatia de mais de 17% do capital da Hermès, usando instrumentos financeiros que driblavam as regras normais de divulgação de participação acionária. A família reagiu reunindo dezenas de herdeiros — mais de 50 — numa holding que concentrou o controle acionário, e levou o caso à Justiça francesa por manipulação de mercado. Depois de anos de disputa, a LVMH concordou em 2014 em distribuir sua participação entre os próprios acionistas e prometeu não comprar mais ações da concorrente pelos cinco anos seguintes. No mesmo ano, Axel Dumas, da sexta geração da família, assumiu a presidência da casa.

Esse episódio costuma ser citado como um dos motivos pelos quais a Hermès consegue manter algo cada vez mais raro no luxo: produção deliberadamente limitada, listas de espera reais para peças como a Birkin e a Kelly, e decisões de longo prazo que não respondem a resultado trimestral de um conglomerado. Numa era em que "quiet luxury" virou discurso de marketing pra tanta marca que na prática terceirizou produção em massa, a Hermès segue sendo o contraexemplo mais citado do setor — não por acaso, ao lado de poucas outras casas também controladas por suas famílias fundadoras, como a Chanel.

Produzido com ajuda de Inteligência Artificial.

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